ROCK BAIANO DE VERDADE??
Segundo Fábio Cascadura, a volta do Festival Boom Bahia significa que o estado
terá um festival de "rock de verdade".
Por Cleber Silva
A banda baiana de rock, Cascadura, abriu o show do Lobão na última sexta-feira (09/11/2007), na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, pelo projeto "Sua nota é um show", do governo do estado.
Como este texto não tem a intenção de resenhar os shows, vou atentar somente à uma declaração de Fábio Cascadura, vocalista da banda baiana, quando ao final do seu show vociferou sobre a volta do Festival Boom Bahia como a grande expressão do "Rock de verdade feito na Bahia".
"Fiquem ligados. Salvador vai ter um festival de rock de verdade. É a volta do Boom Bahia. Salvador terá um festival de rock de verdade".
Neste momento, não escrevo em nome da Associação Cultural Clube do Rock da Bahia (ACCRBA). Escrevo em nome de grandes bandas que passaram por diversos festivais espalhados pela capital e pelo interior. Tenho como infeliz a declaração do senhor Cascadura. Tal afirmação nega a qualidade e credibilidade de inúmeras bandas que participam dos festivais de rock – sob a visão do Fábio – "de mentira".
Penso na Cobalto, banda de grande carreira nos cenários regional, nacional e internacional. A Nomin tem suas músicas executadas em rádios estrangeiras e foi citada como uma das preferidas de um dos maiores vocalistas de Metal do mundo, Edu Falaschi, do Angra. Malefactor e Mystifier têm carreiras internacionais estabelecidas. Penso no Palco do Rock, caminhando para a 14ª edição, o Cajazeiras Metal Fest, o Attrito Bandas Novas e tantos outros distribuídos, principalmente, pela periferia e subúrbio da cidade. Temos festivais em Águas Claras, Cabula, São Marcos, Beiru, Lapinha, Bonfim, Plataforma, Itapuã... Temos festivais em cidades como Simões Filho, Candeias, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Serrinha...
Não sei se é falta de conhecimento ou excesso de negação. Posso até acreditar na tentativa de centralização do circuito rocker. Para a classe média alta, detentora de bens importantes e com acesso facilitado aos melhores produtos relacionados à produção musical, não é interessante a perda de seus espaços para as bandas do subúrbio. Acho que alguém já disse algo do tipo. É o mesmo modus operandi de outrora, aplicado à cultura de massa baiana.
Fábio Magalhães "Cascadura" poderia citar o Festival Boom Bahia (o primeiro nome tem referência fonética bem apropriada à bundalização cultural sofrida pela Bahia nos últimos anos) como mais um festival de rock baiano. Poderia ser mais responsável e ater-se apenas para um maior desenvolvimento da cultura rocker dentro de um estado que começa a respirar democracia cultural, ou pelo menos, tenta respirar. Poderia ter sido menos centralizador e ajudar de alguma forma uma das culturas mais subjugadas do estado.
Em tempo, um bilhete salvou a noite. Ele fazia referência ao Palco do Rock 2008, que também está incluso no Grito Rock Brasil (ver mais em www.gritorock.com.br). Foi lido por um dos apresentadores e me deixou mais tranqüilo. Antes de eu ir para casa, tive que aturar Fábio e Lobão tentando agradar Lázaro. Leram a letra "Maluco Beleza", de Raul Seixas, sob os olhares de Jayme Figura.
Acredito que relegar outros festivais em detrimento de um festival “ressuscitado” e que, felizmente, volta para dar mais opções ao público rocker da cidade, é perder o senso de coletividade do qual o rock baiano sempre precisou. É mais uma prova de que poucos sairão para dar bons frutos. Infelizmente sou um tanto distópico nesse sentido.
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