DIA MUNICIPAL DO ROCK PELO BRASIL


TUDO COMEÇOU NA BAHIA
Adotado por outros estados, o Dia Municipal do Rock é mais uma conquista da pioneira ACCRBA, que conseguiu a Lei Municipal 5404/98, dando exemplos de como lutar pelo rock no legislativo.

Por Cleber Silva (Diretor de Comunicação)

Assim como consta nos livros de História, o Brasil foi descoberto pelos portugueses que aportaram na Ilha de Vera Cruz, na Bahia, em 1500. O termo “descoberto” pode ser considerado eurocêntrico se levarmos em conta a existência de povos indígenas nestas terras. Porém, este é um outro assunto. O momento é para falar do Rock. Do Rock Baiano que é esquecido pelos grandes eixos e discriminado pela indústria fonográfica local, fornecedor de opções variadas para o estilo, mas nunca visto como representativo. No entanto, muita coisa começou na Bahia e a repentina disseminação de aprovações dos projetos roqueiros pelo país não tem dado a devida atenção. Seria improvável o reconhecimento de tamanha façanha: Conseguir uma Lei Municipal que instituísse um dia do Rock numa capital tão carnavalesca e tão centralizada culturalmente é, sem sombras de dúvidas, algo grandioso para uma associação que trabalha para o desenvolvimento de uma cultura marginalizada pela moral e eternizada, tanto no estado quanto no país, por Raul Seixas, o Raulzito.

Com este intuito, a Associação Cultural Clube do Rock da Bahia (ACCRBA) encaminhou à Câmara dos Vereadores, ainda no ano de 1998, um Projeto de Lei Municipal que dispusesse uma data para a comemoração simbólica na cidade. Este projeto foi aprovado e sancionado pelo então presidente da Câmara dos Vereadores, vereador Emmerson José, em 28 de junho do mesmo ano. Estava instituído o Dia Municipal do Rock, Lei Municipal nº 5404/98, em Salvador, capital do estado da Bahia. A data foi escolhida por representar o nascimento de Raul Seixas, baiano e representante maior do rock tupiniquim.

A associação foi criada em 1991 para fomentar e desenvolver o rock no estado, assessorando bandas e músicos. Segundo Sandra de Cássia, presidenta da associação, “A ACCRBA, sendo a pioneira da idéia em todo o Brasil, atua como entidade representativa da cultura rocker baiana. É muito fácil de se notar que a ACCRBA é um grande auxílio para os associados músicos e bandas do segmento que têm dificuldade de manter contatos ou realizar projetos, como também para os seus associados que não possuem banda, que necessitam de informação e manifestação da cultura rocker do seu estado”. Gabriel Amorim, vice-presidente da associação, acrescenta “A produção cultural deste segmento no estado na Bahia nunca foi e não é fácil de se administrar. E é justamente por isso que a ACCRBA foi criada. Por uma democratização no mercado fonográfico saturado e maior expansão desta cultura em todos os seus aspectos, cuja é tão apreciada pelos jovens e adultos do Estado da Bahia no seu próprio Estado e em todo o Brasil”.

São inúmeros projetos realizados pela associação. Considerados pelos diretores o projeto mais bem sucedido, o Palco do Rock caminha para sua 14ª edição, mas encontrou problemas durante três anos (2002 à 2004). A falta de apoio era constante, até a prefeitura da época, em 2001, retirar o evento dos planos para o carnaval em plena atividade, forçando repúdio dos roqueiros da cidade e intervenções da própria associação perante o Poder Público, onde realizou o evento de forma fechada em protesto em 2003 e 2004.

O Palco do Rock é realizado no Coqueiral de Piatã, próximo à praia de Itapuã, tão famosa nos versos de Vinícius de Morais e Toquinho, durante o carnaval. São quatro dias de puro rock, para deleite dos aficcionados. O sítio da ACCRBA tem um acervo histórico, pelo qual pode ser atestado o seu pioneirismo dentro do “famigerado” rock brasileiro.

Voltando ao Dia Municipal do Rock, três cidades já apareceram na mídia especializada como benfeitoras do rock em seus respectivos municípios: Recentemente João Pessoa, na Paraíba, Campinas, em São Paulo e Niterói, no Rio de Janeiro. Em Niterói, o projeto ainda está tramitando.

Com absoluta certeza, são as benfeitoras do rock em seus municípios, mas é sempre bom salientar que isto, na Bahia, completará 10 anos no próximo ano. Inclusive, em João Pessoa, a data (10/10) do seu Dia Municipal do Rock é justamente o último dia em que a ACCRBA, representada pelo seu vice-presidente Gabriel Amorim, ministrou palestras há um ano, onde foram abordados o Palco do Rock e o Dia Municipal do Rock (para visualizar resenha, favor acessar http://www.accrba.com.br/resenhaviagem2006_joaopessoa.htm)
Para mais informações do Dia Municipal do Rock de João Pessoa: http://www.portalcorreio.com.br/entretenimento/matler.asp?newsId=13292

Expo Rock – Durante as comemorações do Dia Municipal do Rock (o baiano), a ACCRBA realiza uma exposição que contém obras de Raul Seixas, além do arquivo de fotos, releases e panfletos de todas as bandas que já passaram pelos eventos da associação. A exposição é realizada geralmente em Shoppings (como o Piedade, 3° maior em circulação de pessoas na América Latina), Escolas e Faculdades com o apoio do Fã-Clube Raul Seixas Forever, representado pelo primeiro guitarrista de Raulzito, na década de 60, Thildo Gama (Relâmpagos do Rock e The Panthers/Os Panteras). Todo ano, um grande público é atraído pela quantidade de material do mais ilustre roqueiro baiano, além do material de bandas independentes, que a cada ano se renova. Outras atrações da Expo Rock são os workshows e pocket shows. O próprio Thildo Gama sempre faz um emocionado show, relembrando a época em que conviveu com o ídolo, tocando os clássicos de Raulzito. Outros artistas baianos independentes já participaram, tanto em apresentações acústicas como em workshows mais elaborados, como é o caso de Joel Moncorvo, atualmente baixista das bandas Ungodly e Slow, além de um trabalho solo premiadíssimo e Ricardo Primata, também com trabalho solo premiado e guitarrista da banda Slow. Outro artista de quem não se pode deixar de falar é Jone Frank, baterista de Jazz Fusion que sempre faz um dos workshows mais visitados, como a banda Portal, que no início fazia um revival do Maluco Beleza mesclado a clássicos do Heavy Metal.

A associação leva ao público, de forma gratuita, toda a história do rock baiano, contada em imagens, sons e causos dos mais diversos músicos que atuaram ou ainda atuam na cena baiana. Dentro deste contexto, pode-se observar um outro pioneirismo – o de ministrar workhows e apresentações rocker’s na praça de alimentação de um shopping em plena atividade.

Praça do Rock – Ainda em negociação, a Praça do Rock, com o Museu Raul Seixas, é um projeto que a ACCRBA elaborou no ano de 1998 e consiste na criação de um espaço democrático que abrigue os shows de rock independente da cidade. Mas não se limita a apenas isto. De acordo com Sandra de Cássia, “é um projeto inovador, que quebra as barreiras do preconceito. Salvador precisa desse espaço para que mais bandas surjam e a mídia também comece a dar voz a esta galera. Tem muita gente querendo se expressar para um público maior e numa melhor estrutura, mas sofre sempre com a má vontade de muitos que não acreditam que exista rock bem feito na Bahia”. Na cidade de Niterói, também há um projeto parecido com a Praça do Rock (mais informações em http://www.arariboiarock.com.br). Estes exemplos ratificam o pioneirismo e atitude franca da associação que, mesmo sem os apoios necessários, consegue influenciar no direcionamento das atividades roqueiras independentes no país.

Os estados do Paraná, São Paulo e Ceará, como exemplo, têm associações que trabalham em busca do fomento do rock local. O intuito é tão significativo para o Clube do Rock baiano que, ao perceber a quantidade de agremiações que aparecem nos arredores do país, algumas até englobando estados e festivais, como é o caso da Associação Brasileira dos Festivais Independentes (ABRAFIN), Gabriel Amorim sente-se orgulhoso: “É muito bom ver que as bandas estão se unindo. É muito bom saber que isso começou conosco em tempos de pouco espaço midiático e pouca esperança mercadológica, e de até um certo descrédito por parte do próprio segmento (bandas e produtores) em confiar no sucesso de uma entidade organizada que tem também como função abrir um diálogo com o poder público tanto quanto privado. Espero que isso se alastre ainda mais para que o nosso orgulho em sermos os primeiros a realizar tal façanha seja diretamente proporcional, como que o reconhecimento também seja maior por parte de quem tem lutado pelo desenvolvimento do rock independente brasileiro”, disse.

No Brasil, a ACCRBA é a primeira Associação de Rock do Brasil (1991), criou o primeiro Festival de Rock no Carnaval do Brasil (Palco do Rock, que também é o maior festival de rock independente do Estado da Bahia - 1994) e o primeiro Dia Municipal do Rock do Brasil (28 de junho, data de aniversário de vida de Raul Seixas - 1998).