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Rock Suburbano
O cenário alternativo do rock and roll em Salvador centraliza-se em bairros como o Rio Vermelho, além do maior evento de rock do Estado, no carnaval, que é o Palco do Rock. Diferente desses, caminhando à margem do que já está à margem da indústria cultural baiana, jovens do bairro de Plataforma criaram o festival “Rala Coco”, que neste ano teve a sua 4ª edição, com bandas de rock, reggae e hip-hop, criando opções sonoras a mais, dada a diversidade de gostos e estilos existentes entre os jovens da localidade.
A idéia do festival é agregar ainda mais as pessoas que optam pela sonoridade alternativa e por isso o reggae e o hip-hop foram se juntando ao rock, estilo predominante na festa, aberta ao público mas que tem “ares de festa de amigos”, como disse Heron Oliveira, guitarrista da banda Hypótese de Gaya, do bairro de Plataforma.
Dentro da história do rock baiano, artistas como Raul Seixas e Pitty e a banda Camisa de Vênus figuraram no cenário roqueiro nacional com grande atrativo de mídia e público, enquanto muitos outros, instigados pelo sucesso desses, lutavam para conseguir divulgação de seus trabalhos. Contemporâneos da banda Camisa de Vênus, por exemplo, a banda Boy Subterrâneo, fundada também no bairro de Plataforma no final dos anos 80, é considerada uma das mais resistentes da cena local, porém, segundo registros de Ednilson Sacramento em seu livro “Rock Baiano – História de uma Cultura Subterrânea”, a banda teve seu fim em 1996.
Outra banda do bairro de Plataforma entra na lista: Os Canalhas, que foi agraciada com o investimento de um selo fonográfico suíço chamado Far Out e teve distribuição de um disco na Europa, isso em meados dos anos 90. Do subúrbio ferroviário, também surgiu a banda Injúria, que após um hiato tenta reformulação para uma volta aos palcos da cidade.
Hoje, muitos grupos emergem e tentam criar suas histórias musicais começando pelos seus bairros de origem, como é o caso de bandas como Hypótese de Gaya, Boca do Lixo e Utofobia, em Plataforma. “Infelizmente não há espaços nem muitos shows pelo subúrbio, sendo que há público suficiente para isso”, disse Heron Oliveira. Outras opções para as bandas são os shows fora do subúrbio, em bairros como Bonfim, Centro e Rio Vermelho. Segundo Alan Passos, ex-baixista da banda Paradoxo, atualmente na Hypótese de Gaya, “existe muito preconceito com as bandas do subúrbio. A gente consegue tocar no Bonfim porque a galera chama e já conhecem a gente, mas no centro estamos chegando agora, depois de muita dificuldade, sem contar que só uma banda, até agora, conseguiu”.
A quantidade de artistas no subúrbio ferroviário, segundo Heron Oliveira, é muito grande e a quantidade de bandas de rock na localidade é diretamente proporcional. Com a música, as doutrinas absorvidas pelas diversas tribos urbanas chegam a pontos extremos mas são consideradas válidas pelo Alan: “Lobato é mais punk. Os outros bairros são mais metal. Em Plataforma fica equilibrado com outros tipos de som. Às vezes tem umas desavenças mas rola um respeito de um não invadir o espaço do outro”.
Lenon Reis, guitarrista e vocalista da banda punk Boca do Lixo, reforça o discurso da separação afirmando que “muitos já vêm com intenção ruim mas tem sempre as pessoas conhecidas de um meio ou de outro que apaziguam as desavenças. O que não dá pra gostar é da situação de um grupo já chegar xingando outro. Aí é briga na certa. Tem que rolar mais respeito. É cada um na sua e todo mundo vive bem”.
Rock de batom
As garotas também fazem parte deste grupo de roqueiros suburbanos. Não só como público, mas como musicistas. Exemplo disso é a vocalista e a baterista da banda Hypótese de Gaya, Vick Alana e Aline Santana, respectivamente. “Eu sempre toquei em bandas de diversos estilos dentro do rock e sei que tem muito preconceito. Tem gente que só de saber que a banda tem uma baterista, dá risada. Outros ficam do meu lado no show mas quando vêem que eu me destaco, batem palmas”, disse a Aline, sem pouca modéstia. No caso da vocalista Vick, não há tanto susto pois a incidência de bandas de rock com vocal feminino tem aumentado no país. Vick é a segunda vocalista a passar pela banda e completará seis meses de banda ao mesmo tempo em que a banda comemorará seu primeiro aniversário.
Referências
As bandas de rock do subúrbio possuem uma peculiaridade com relação às bandas das demais localidades: são referências, umas para as outras. É fácil observar numa conversa informal como os garotos citam as bandas e alguns ícones do rock suburbano. Nomes como o de Sérgio Ballof, vocalista da banda de Death Metal Headhunter D.C. e Arnauld Asmoodeeus, ex-vocalista da banda Mistifyer, conhecida internacionalmente e atualmente vocalista de uma das revelações do metal nacional, Ungodly, figuram entre os principais nomes, porém, nomes desconhecidos até mesmo para quem gosta do som e não convive no subúrbio são citados. A banda Profano, por exemplo, segundo Heron Oliveira, tem se destacado dentro da cena metálica suburbana. Ainda segundo Heron “as bandas do subúrbio, por não terem onde tocar, se especializam no que fazem, criando expectativas positivas para o futuro, porém, o alto custo com estúdios e gravações tem tornado o trabalho mais lento”.
Gravando e divulgando
A dificuldade de toda banda emergente de rock sempre está na qualidade de gravação e na divulgação do trabalho. Alan Passos diz que “o subúrbio possui estúdios de gravação mas são para qualquer tipo de música, não são especializados em rock”. Ainda segundo o baixista, as bandas do subúrbio não possuem produtores que cuidem dessa parte gerencial da banda, sobrando para a própria, o que não somente os afeta. Talvez a maioria das bandas de rock da cidade sofra com o mesmo mal.
A divulgação de shows e cd´s gravados são feitos a partir de folhetos e o famoso “boca-a-boca”. “A banda Paradoxo, enquanto existiu, só conseguiu gravar uma demo e fazer somente cinco cópias que foram passadas de mão em mão até se tornar respeitada no subúrbio, chegando a tocar em espaços conhecidos da cidade, como a Galeria do Rock, no Centro, dividindo o palco com grandes bandas do cenário local”, disse Alan Passos.
Alta rotatividade
Como se não bastasse todo o percalço, a constante mudança de membros em bandas é apontada por muitos músicos como um fator negativo. “Às vezes a gente vem afiado com uma formação e aí alguém pula fora. A gente tem que praticamente recomeçar do zero, tirando as músicas, etc. Sem contar o tempo que fica parado procurando um músico que se encaixa no que a banda quer”, disse Heron, que está ensaiando com um novo baixista, pois o antigo resolveu deixar a banda em solidariedade ao guitarrista que fora expulso.
Como pode ser visto, as bandas do subúrbio passam por situações semelhantes às de várias bandas que tentar figurar no cenário roqueiro brasileiro. A instabilidade nas formações - o que já fez muita banda acabar – as condições de gravação e a inexperiência técnica na área de som, os preconceitos e o radicalismo das tribos são exemplos das condições de trabalho artístico musical alternativo. Talvez o grande problema deles seja estarem em Salvador, no Estado da Bahia.
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